sábado, 7 de maio de 2011

Uma e a Outra

Era uma vez duas irmãs, a Uma e a Outra. Filhas do mesmo pai, mas de mães diferentes.

Moram na mesma baía. São vizinhas de porta. Mesmo em frente uma da outra.

Ambas receberam do pai os financiamentos para a sua formação e foram educadas com os mesmos princípios. Servir o bem público.

A Uma é corpulenta e forte. A Outra é mais fraca, mais frágil, é mais …“menina”.

A Uma, a mais velha, cresceu com a mentalidade da mãe, “… o Governo que pague” e está sempre a exigir do pai, ajuda e atenção.

A Outra, por influência da mãe, acredita noutros valores. Para a ela a economia de mercado, e os princípios economicistas do tipo “utilizador/pagador”, são a base de uma sociedade mais justa. Contudo perdeu-se no fundamentalismo do lucro a todo custo, do lucro fácil.

Segundo a Uma, a irmã a Outra, é menina fina! Claro!... reside na zona nobre da Baía e só serve os Senhores Doutores, os Senhores do Dinheiro, os Ricos. Mas mal sabe ela é que estes “senhores”, a maioria, são aqueles que vivem dos seus ordenados e do seu trabalho. Não são todos “controladores”, e  só têm em comum, não poderem fugir ao fisco!

Já a Uma, para a Outra, é uma fingida! Uma traiçoeira. Está sempre a lamentar-se e a chorar nos braços da mãe para que esta lhe ajude e interceda junto do pai. Só quer mamar!. E quanto mais mama mais quer. Se for preciso ir para a rua gritar, vai, não tem vergonha.
Aliás, a Outra costuma dizer que a Irmã,  a Uma, "não quer  é nada no castanho”. Trabalhar que é bom não é para ela. Basta só ver as vezes que  levanta ou baixa um barco. Se não fosse a “chatinha” do Marinho Maçaroco, contava-se nos dedos de uma mão os dias de trabalho.

Mas o que irrita mesmo a Outra, é que a Uma quando quer mesmo alguma coisa consegue.

Vai a S. Miguel , com "pézinhos de lã", pela calada, senta-se no colo do pai e como aquele “arzinho” de infeliz, de “pobrezinha”, de “cabra mal enjeitada” convence toda a gente. Até parece que o Pai tem medo dela. Imaginem só que já conseguiu espaço para operar na rua da Outra. Vejam lá onde já vamos!

O que a Outra não sabe é que a Uma, também tem uma vida dura, mesmo com aqueles apoios todos, a vida não lhe é fácil. Do que tráz e faz, a maior parte é para dar de "comer" aos grandes "donos" do que dá  o mar.
Tal, como todos os que produzem neste país, a Uma está nas mãos de quem compra e vende.

Está subvertida a ordem das coisas. Quem ganha não é quem produz, mas sim quem comercializa.

Por isso quando vou ao cais, naqueles dias de mau tempo ou nas calmarias dos fins de tarde, consigo ouvir no ar os gritos em surdina, dum lado: - Paga que podes!; Ganhas bem!; És rica, o que são 93€ pra ti… , e do outro :- Fingida; Oportunista; Subsídio-dependente; Esta mama vai acabar, agora com a Troika…

O que as duas não sabem nem querem saber é que no fundo, quem paga tudo isso somos todos nós.

Por isso quando os recursos não abundam temos que os gerir bem. Devemos isso aos nosso filhos.

E… duas gruas, e duas bombas de combustível, e duas áreas e dois chefes… e duas mais não sei o quê, e vedações, e portões e cancelas, e cartões...Ali é dinheiro mal gasto?! Disso não tenho dúvidas.
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